To caindo de sono, sem o que escrever no blog, então vamos viajar....
Havia um homem. Não, não pode chamar 'aquilo' de homem... era um monstro. Rigoroso em todos os aspectos, um olhar de severidade. Esse homem, morava em uma fazenda próxima a um vilarejo com sua família. Com frequência, ia para a cidade, manter seu social com a plebe, conhecia mais pessoas do que qualquer um. Um político nato. Mas é claro, bobagens como essa, não passavam por sua cabeça. Um sábado por mês, ele mantinha seu padrão... um padrão imutável... Era um ritual.
Pensava ele, em sua discutível normalidade, o direito de viver de outros. Uma dúvida que ele se perguntava constantemente. Horas e horas bolando, arquitetando, projetanto cada aspecto de sua diversão, seu hobby... seu estilo de vida. O velho armazém abandonado, fechado a anos, era sua área de trabalho perfeita. Sujo, mal acabado, escuro, úmido e infestado de ratos, não levantariam suspeitas de forma alguma. Ao centro, encontrava-se uma espécie de palco, feito de madeira, com alguns degraus podres. Em cima deste altar, como gostava de pensar, sua mesa de trabalho. Grande, feita de madeira firme. Apesar de suja, comportava suficientemente bem sua função. Mais ao fundo, encontrava-se um alçapão, que antigamente era usado como estoque na velha mercearia que ali existia.
Espaço sufiente, para esconder, o que os outros não poderiam descobrir de forma alguma. Espaço suficiente, para se cavar um túnel. Túnel este, que seguia por metros e metros, com pouco iluminação pelo caminho, levando a uma região mais afastada, próxima a um poço. Este sim, paredes de pedra, bem estruturado, e uma escuridão total, onde só se podia ouvir o som constante de uma água corrente passando em sua profundeza.
O tempo passava, sua falta de adrenalina começava a enloquecê-lo. Ele tinha que bolar algo. Na verdade, já tinha tudo pronto, era só dar o pensamento final. Este de cartola cinza e barba longa? Ou aquele, com trajes a rigor? Quem terá o privilégio do descanço? Sim, quem seria o sortudo? O pobre mendigo manco? Quem seria? Qualquer um?
O manco, pensava ele. Não merece sofrer mais. Posso ajudá-lo. Sim. Agora tenho certeza, será ele. Hoje a noite.
Ao ter um belo jantar com sua família, terminou sua ultima brincadeira com as cartas e seus filhos. Adorava entretê-los com mágica, colocou-os a dormir. Foi deitar-se cedo junto com sua esposa, quando percebeu que ela tinha adormecido. Levantou-se sorrateiramente, saindo com sua mala. Seus apetrechos necessários para o serviço.
Pouco tempo depois, estava no vilarejo e logo entrou em seu armazém. Ainda estava muito movimentada a principal rua. E como era de se esperar, sua vítima, ou melhor, o felizardo estava no mesmo lugar, ainda com esperança de ganhar mais alguns trocados para finalizar seu exaustivo dia. Ele tinha um visão por um pedaço da janela quebrada do armazem. Minutos após minutos ele ficou ali, apenas olhando, imaginando a sensação. Era tântrico. O movimento aos poucos foi diminuindo, e o manco começa a se apoiar para se recolher à seu casebre. Era hora de agir.
O armazém já estava todo preparado, mordaças, ferramentas, a iluminação necessária. Só faltava o manco. Aproveitando-se da escuridão, deixa-se uma porta lateral entreaberta, e fica aos ouvidos. Segundo após segundo, passo após passo... o manco se aproximava. Um rangido oco começa. A porta começa a se abrir lentamente. Som de moedas caindo ao chão. Foi o suficiente para atraiar a atenção do manco. Que via a porta se abrir diante de seus olhos, e o som de metal logo ao seu lado. Vagarosamente, ele se dirige à escuridão. Logo ao adentrar, a porta se fecha rapidamente, deixando um som seco. Assustado, com um só golpe, o manco desmaia no chão.
Com o escolhido já amarrado na mesa de seu altar. Pacientemente, ele aguardava o "felizardo" acordar. Ele alinhava milimetricamente seus utensilios. Conseguia ver seu reflexo em sua faca. Olhos negros, sombrancelha pesada, um olhar sério. Até que a vitma começa a se debater.
Lentamente, ele levanta-se, hoje será com a faca, pensou ele. Machado já perdeu a graça, brincava em seus pensamentos. Começa a se dirigir em direção a mesa. O olhar de aterrorizado de sua vítma não o comovia. Com sua boca amarrada, não podia fazer nada mais que alguns grunidos.
Momentos como este são marcantes, então, como sempre, começa a cortar em forma de um quadrado, um pedaço da camisa suja e rasgada que o sujeito utilizava. Era sua coleção. Que graça teria se não pudesse colecionar os troféus?! Pensava ele. Apenas mais um entre muitos, para esconder em meu celeiro. Ahh se as pessoas soubessem quem eu realmente sou....
O sujeito ficava cada vez mais desesperado, a incerteza de saber o que aconteceria, acompanhado pelo medo eram inimaginários. Entre piscadas longas, gemidos intensos e fortes contorcionismos dos membros, estava chegando a hora.
Faca em punho. Vagarosamente, começa a passar a afiada e impecável lâmina entre seu torax, fazendo pequeno sulcos. Algumas gotas de sangue começavam a se deslizar para o lado. O desespero do felizardo começava a aumentar. A faca começa a subir. Chega de brincadeiras, pensou ele. Já na altura de seus olhos, bastaria apenas um movimento. E tudo estaria acabado. Sua respiração começa a aumentar. Os batimentos aceleram. Dava para ver fortes tentativas de escapatória por parte da vitma. A ansiedade encheu seu peito, junto com a dúvida. Agora? Não... mais um pouco, deixa eu curtir o momento. Agora? Pra quê a pressa? Aproveite! Era um dilema. Aproveitar o momento, o desespero alheio era ótimo, contra terminar logo e sentir a mais pura das emoções. O poder. Seu coração estava na boca, não aguentava mais, precisava terminar com aquilo. A respiração começa a diminuir, até que em um único reflexo, a faca desce com toda a força. Foi um golpe perfeito. Segurava a bainha com firmeza. Fincanda no peito. O serviço estava pronto. A sensação de alegria enchia seu espírito. Completava sua alma. Chegava a dar calafrios. Observava os olhos do sujeito. Fixos, olhando para o infinito, e lentamente, foram perdendo a cor. A emoção. A vida. Essa sensação era de um jeito magnífica e aterrorizadora... simplismente... tóxica.
Poucos minutos depois, era a parte menos interessante da noite. Livrar-se do problema. Era considerado como um sacrifício extra de sua parte. Ele havia dado a salvação à uma pessoa. Levando-a a pura felicidade. Agora bastava salvar sua pele na sociedade. Era o mínimo que poderia fazer a si mesmo, por esse favor que ele prestava aos outros.
A faca já estava limpa, e alinhada com as demais ferramentas. Sua mala já estava pronta. Foi em direção à um velho armário aonde guardava seu "removedor de problemas". Uma lâmina de tamanho descomunal. Quanto maior a lâmina, menor o problema ficará. Pensava ele. Entre assobios e cantadoradas, o manco foi tornando-se... movível... Era um serviço bem simples, francamente. Primeiro, os membros superiores, por serem mais finos. Em seguida, os membros inferiores, para poder ficar apenas com a parte central sobrando. E sua parte predileta. Apoiava a nuca na ponta da mesa, e com um só golpe... separava as duas últimas partes.
Abria a pesada porta do alçapão, com os pedaços já colocados em sacos, jogava-os lá pra baixo. E se certificava várias vezes em deixar a parte superior impecável. Nenhum vestígio. Fazia parte de sua ceita. Simplismente, era seu estilo. Tudo pronto, dirige-se para o andar de baixo. Com um velho carrinho de mão enferrujado, os sacos são empilhados para melhor locomoção. E ele começa a retirar a enorme tábua de madeira da frente da entrada do túnel.
Ao encostar na tábua. Escuta um barulho de porta rangendo. Tinha alguém lá em cima. Tinha certeza disso. Sua respiração começa a aumentar. Mas como poderia? Nunca veio ninguém. E agora, não posso mover a entrada do túnel, pois fará barulho. Não posso subir, pois será muito suspeito. Quem estará ai? Como esconderei o corpo? Será que realmente encobri todos os vestígios de meu altar? Sim. Claro que sim. Mesmo? É... Não, não é hora de pensar nisso, escondi sim. Tomara...
As passadas dirigem-se para a abertura do alçapão. Começa entrar em desespero. Como esconder o carrinho com sacos? Sua circulação dispara. Sente sua jugular pulsando em seu pescoço. O sangue quente, vermelho e pesado correndo velozmente em suas veias, cada batimento uma passada mais perto da entrada para o andar de baixo. Um passo mais perto de arruinar seu segredo. Um passo mais perto de acabar com seus favores. As pessoas nunca entenderiam. Ele só quer ajudar. Acabar com sofrimento. Não é o que todos querem?
As passadas param. O silêncio reina no ambiente. Flashes passam por sua memória. Os grunidos do manco. Será quem alguém que estava passando teria ouvido? Mas porque não entrou antes? Será que estaria esperando o momento certo do flagra? Não, não pode ser. Sem sinal de movimento, estava enfartando ali em baixo. Sentia seus batimentos entregando sua localização.
Mais perguntas surgiam em sua mente. Seus pensamentos estavam a mil. Precisava definir prioridades.
O som dos passos começa a ir na direção oposta. Confuso, porém aliviado, ele se pergunta. Porque? Vale a pena subir e descobrir quem era antes de sair do armazém? Essa informação seria muito útil. Mas o risco? Melhor temrinar o serviço por esta noite e pensar no que fazer quando já estiver seguro. Sim. Era o mais sensato. Ao escutar a porta rangendo novamente, rapidamente, retira a madeira da entrada do túnel. E começa o longo trajeto até a outra extremidade.
Já era tarde da noite. O céu estava limpo, muita estrelas. Nossa. O felizardo se deu bem. Se livrou do sofrimento em um dia bonito. Em sua menta paranóica, era só isso que ele se importava.
Com o resto de suas forças, retira os sacos do buraço do chão, colocando-os ao seu lado na grama.
E um a um, despeja no melhor dos esconderijos. Corrente de água. E finalmente, serviço pronto. Favor feito. Poderia dormir em paz esta noite. Tinha mais tempo até sentir a necessidade de emoção novamente.
Retorna pelo túnel trazendo o carrinho de volta, sube as escadas velhas, sai do armazém por uma rua deserta dos fundos e dirige-se em direação a sua fazenda. Exausto, porém aliviado, da uma última passada em seu celeiro. Uma tábua no chão não tinha os pregos. Então com um pedaço de ferro e um pouco de jeito, poderia facilmente ser retirada. Lá estava, sua razão de viver. Seu tesouro mais valioso. Uma pequena caixa, dentro dela, tecidos de todos os tipos e cores. Vários e vários. Era seu portifolio. Uma a mais para a coleção, pensou ele. Guardou tudo novamente. E dirigiu-se para casa.
Deixou o café arrumado para o dia seguinte. E foi se deitar. Ufa. Poderia dormir tranqüilo essa noite.
Nikolas Moya
PS. Amanha quando eu reler isso... vou me envergonhar huahusahuas Boa noite pra mim. Bom domingo pra vocês!
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